Textos e Artigos

Aprender e ensinar em comunidade virtual de aprendizagem: uma experiência

Ilustrações: Didiu Branco

Tudo começou em maio de 2008. Naquele mês, as inscrições na Internet foram abertas e, a cada novo inscrito, a comunidade tomava forma. Uma comunidade virtual não pertence a quem iniciou o projeto, nem é o ambiente virtual onde nos reuníamos. Somos nós, as pessoas! Por isto, nossa comunidade existiu enquanto houve interesse em permanecermos juntos, mais exatamente, meados de outubro. Sabe como é:... final de ano é sempre complicado. Talvez nos reunamos no próximo ano, talvez não.

A nossa comunidade se chamava Gestores de Comunidades Virtuais de Aprendizagem, e nos encontrávamos aqui no EducaRede. Tem este nome porque tínhamos em comum o desejo de aprender a gerir outras comunidades às quais pertencemos. Somos educadores de sala de aula e desenvolvemos comunidades de aprendizagem na Internet com os alunos e os professores que formamos, e que nos formam.

Nosso desafio de gerir uma comunidade virtual de aprendizagem (CVA) continua, já que ainda não há uma cultura disseminada de aprendizagem online. Mas vamos contar um pouco do que vivemos e aprendemos ao longo daqueles seis meses.

 

Participar de uma CVA

Nosso maior inimigo era o pouco tempo que tínhamos para participar da Comunidade de Gestores – como ficou conhecida. Conseguir acompanhar as discussões e participar mais ativamente requer tempo e organização. Afinal, em ambiente virtual, lemos, estudamos e pesquisamos muito mais do que em formação presencial.

Quando escrevemos em uma comunidade virtual há uma reflexão e análise de como nossa escrita será recebida pelas outras pessoas. É uma preocupação que nos faz crescer como educadores, mudar o foco, sentir por meio das palavras. Há um quê que nos faz pensar e agir de forma diferente.

Estar em comunidade, é viver uma relação horizontal com os demais, embora exista assimetria em alguns momentos por conta das orientações do gestor. Como aprendemos uns com os outros, cada pessoa é muito importante; sem a participação dela, a comunidade de aprendizagem não existe.

O melhor sinal de que a comunidade está viva são as opiniões divergentes e os conflitos que aparecem nas interações. Isto porque aprendemos na convivência, pelo diálogo, respeitando diferentes pensamentos e compartilhando nossas vivências em direção a novas experiências.

Nestas trocas, conseguimos sentir a proximidade dos colegas. Embora fisicamente longe uns dos outros, estávamos perto, acolhidos e apoiados, mesmo em silêncio.

 

Gerir uma CVA

Participar da Comunidade de Gestores nos ajudou a gerir as iniciadas por nós. Aprendemos que para gerir e mediar uma comunidade, temos de desenvolver o sexto e o sétimo sentidos. Mas, sobretudo, ter paciência.

Respeitar o espaço e o tempo de cada um vem com a prática e com o entendimento de que não andamos no mesmo tempo e temos necessidades diferentes. Mas isto não torna a comunidade virtual menos produtiva. Pelo contrário, traz o brilho e a necessidade de sermos humanos, sentido de complexidade, de compartilhamento, de anseios, de particularidade e não de individualidades. Somos uma comunidade porque precisamos uns do outros. Cada um a seu tempo.

Perseverança e paciência são fundamentais porque quando uma comunidade é criada, nossa ansiedade vai lá em cima! Achamos que todo mundo vai entrar e interagir o tempo todo, e não é isso que acontece. O estímulo à interação dos participantes é um trabalho árduo e que faz parte do nosso dia-a-dia.

No intuito de estabelecer laços, o gestor está sempre presente e trata o outro como amigo de longa data. Percebe que mesmo quem não envia mensagens, só acessa o ambiente, também faça parte da comunidade. Esse participante tem a necessidade de ler o que os colegas escreveram, saber que faz parte do grupo e que, se precisar, tem gente como ele para ajudá-lo.

Mediar comunidades virtuais não é muito diferente de mediar aulas presenciais. Tem sempre aquele que dorme na aula, o outro que prefere ficar jogando videogame escondidinho, com o seu celular, aquele que fica olhando para a lousa e sonhando com seu grande amor e, finalmente, o outro que simplesmente faltou à aula. Mas, é claro, tem também os que não fizeram nada disso e estavam lá, bem atentos, ainda que quietinhos. Assim, é preciso olhar para cada participante, sentir a pulsação e a respiração. Como fazer isto? Boa pergunta! Cada um de nós tem um jeito especial de fazê-lo. Afinal, nosso trabalho é de criação. Não existe receita, como a ação de Educar.

Esta questão de ser professor nos remete a uma de nossas colegas – formadora de educadores – que descobriu, por meio da mediação, que o professor tem muitas angústias e precisa de alguém para ouvi-lo, da mesma forma que muitas vezes desabafamos nossas preocupações na Comunidade de Gestores. Ouvir é nossa especialidade, mas também precisamos ser ouvidos.

Compreender os atrasos, os erros de digitação e o medo de errar; relacionar o projeto a cumprir e as necessidades dos participantes; tornar o espaço virtual agradável; estar atento; ter autonomia: tudo isto em meio virtual, que começamos a conhecer há tão pouco tempo... Ufa!

Mas descobrimos que lidar com a tecnologia não é tão complicado assim. Basta um pouco de boa vontade e de colaboração das pessoas que enfrentam o mesmo desafio.

Quer saber? No final disto tudo, aprendemos que o segredo talvez seja ser incansável, ou simplesmente ser educador.

 

*Este texto foi escrito coletivamente a partir dos depoimentos de treze participantes da Comunidade de Gestores. Os autores são:

 

Dirceu Donizetti Dias de Souza: Comunicação em Ciências

Elaine Bernardo de Oliveira Queiros: Educação Infantil DRE-São Miguel

Fernanda da Silva Ribeiro: Território Escola

Francisca Lucileide Saraiva Silva: Escola Digital

Jaciara de Sá Carvalho: Gestores de Comunidades Virtuais de Aprendizagem

José Carlos Antonio: Fórum Internet na Escola

Janete de Fátima Stimamiglio: ISCJA

Luciene Campos

Maria do Carmo Ferreira Lotfi: PED-EAD Santo Amaro

Marinez Forest Santos: Quem tá na rede é professor

Marjorie Klich Nunes

Sonia Maria de Siqueira Granda: Atibaia em Rede

Ulisses Sanches: English class

Vanise P. M. de Freitas: Rede Salesiana de Escolas

 

O Portal EducaRede contava com 51 Comunidades Virtuais de Aprendizagem, de histórias de pessoas ao ensino de Inglês, quando este texto foi publicado.

04/12/2008

 

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